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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Aquela que Ama

Algumas coisas foram construídas
para serem eternas
Essas coisas não existem mais


Ai meu coração que não se cansa de se apaixonar, quando leio Fernando pessoa em noites de tabacarias e o ouço me dizer na surdina “nada me prende a nada/ quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo/ anseio com uma angústia de fome de carne” ou “não eu não quero nada/ já disse que não quero nada// não me venha com conclusões/ a única conclusão é morrer” meu coração palpita sedenta por desejo de conhecê-lo, de fazer parte de seu dia e compartilhar sua dor, simplesmente observá-lo enquanto escreve um poema e assim ao menos ter alguma idéia do que ele passava no momento em que escrevia aquilo e acolá, o livro que comprei  num sebo que já não me recordo o nome, e que também já não tem importância desde  que eu possa chegar lá novamente algum dia sem precisar de nomes ou endereços, apenas  com minha memória fotográfica, fica abaixo de uma galeria da qual também não sei o nome, se é que um dia soube, o sebo era encantador, como tudo no centro do Rio de janeiro, gigante, e somente com livros que valem a pena comprar, se recusam a vender Paulo coelho ou o caçador de pipas, fui direto na seção de poesias, não sei porque mas os vendedores sempre simpatizam comigo, acho que é pelo tamanho dos meus dentes, somente os poetas lêem poesia ele me diz retribuindo o sorriso, tabacaria da ediouros versão pocket  com folhas finas e amareladas do tipo mais vagabundo, e os poemas seguidos um do outro, sem aquele espaço necessário entre ele, aquele espaço que precisamos para nos recuperar e digerir corretamente um poema, é a única coisa que meu dinheiro permite levar, cinco merréis, valeu mais que cada centavo, afinal o importante é a palavra escrita e poder tocar num livro e ler as palavras e ter a sensação de que elas existem, não ficam somente no plano do que poderia ser mas não é, o livro é algo que se materializa. Quando abri o livro, já em casa, a página é cinqüenta e me revela um poema homônimo do livro tabacaria 15 -1-1928 ai como gostaria de estar viva neste dia, em frente à tabacaria, na mesma hora em que ele se encontrava para lhe perguntar se  gostaria de compartilhar um café ou um cigarro, mesmo que fosse para ele me dizer não muito obrigado, preciso terminar esta poesia, a inspiração não pode falhar, para que 82 anos depois ele possa me dizer sinceramente, mesmo que ausente, “não sou nada/ nunca serei nada/ não posso querer ser nada/ à parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo... a história não marcará, quem sabe?, nem um, / nem haverá se não estrume de tantas conquistas futuras...olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolate” para dentro de mim gozar secretamente e pensar, eu poderia ter sido amante de Fernando pessoa iria a Lisboa somente para arrumar seu quarto e preparar sua comida, eu poderia ser amante de todos os grandes gênios sem que para isso precisasse tocá-los, somente o prazer de compartilhar o mesmo espaço.
A matéria livro, estava eu na livraria travessa, no ccbb rio, angustiada por não poder comprar um livro, ao som de um jazz que também não sei o nome e duvido que isto tenha importância, o som era bom, e dizer com voz de quem faz manha, vamos embora, ficar aqui me deixa triste porque não posso comprar nenhum livro, o segurança sorriu para mim, ele ouviu o que eu disse e achou engraçado, engraçada eu, lhe confessei que pelo menos as músicas hoje em dia são de graça basta baixar da internet ou copiar de um pen drive de um amigo, bem, a música ninguém me tira, ela já é virtual por natureza, mas um livro não, nada substitui o prazer de ter um livro em mãos, ele ficou meu amigo, eu passo lá em frente e ele me cumprimenta, as pessoas do rio me parecem simpáticas, mesmo que insistam em me dizer o contrário. Estou apaixonada.
Apaixonei-me também por Bandeira de Mello, que perfeição são seus traços, a preferência pelo desenho e cores ocres revelam seu fascínio pelo primitivo pela perfeição da forma, pela técnica, isso percebe-se que ele tem, mas há algo mais, sua sutileza revelam sua identidade, traços fortes e único, apreender tudo para revelar somente o essencial, de primitivo carrega também sua preferência por trabalhar com pastel, crayon, sanguínea, pedra negra, nanquim, têmpera e o óleo quase como uma auxiliar, não como peça principal. Queria visitar seu ateliê, dizer que também poderia ser sua amante, ficar quieta encostando meu queixo numa bancada e ouvindo ele dizer como se faz isso ou aquilo. Já chega rua das laranjeiras numero 34. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Vou comprar tinta óleo e tela

Camila Bravim, Mulher Imperfeita e Inacabada, 2007, óleo sobre tela

Não posso negar que as correntes artísticas que mais gosto é o impressionismo e expressionismo e alguns meses atrás por tê-los como referência ficava muito insatisfeita com meus desenhos porque eu não conseguia atingir o patamar de Van Gogh e Monet... mas what the hell... hoje em dia fico satisfeita em me expressar artisticamente. Sempre converso com Léo meu professor de desenho sobre a minha dificuldade com luz e sobra e perspectiva no desenho e coisa e tal... ai ele vem e me diz que é muito fácil e começa a desenhar e mostrar como é numa rapidez admirável (sempre viajando no desenho) – é assim ta vendo – ah sim claro to vendo –  mas o que pra ele é tão claro e fácil eu preciso de um esforço tremendo... antes de tentar vestibular eu trabalhava em uma escola de arte (bons tempos, um ano inesquecível) e lá convivi, conheci, tive contato e soube da existência de artistas plásticos que admiro bastante como Camizão, Nízio, Choudane (acho que é assim que escreve), Tião Fonseca e desenhistas exímios como Léo e tantos outros alunos que ele tinha que na primeira aula já desenhavam com uma facilidade invejável.... ver seus quadros e desenhos sempre me colocava num lugar de não artista... um dia o Nízio perguntou para que eu iria prestar vestibular e lhe respondi que seria Ciências Sociais e ele se admirou por não tentar Artes Plásticas mas eu não me sentia artista... pois bem... quatro anos depois de faculdade de sociologia, antropologia e ciências políticas me deixaram extremamente cética com o mundo é que tenho uma sensibilidade excessiva e ver as dores e falhas do mundo acabaram por me consumir – nothing is gonna change my world certo – ai criei um blog que a princípio era pra colocar minha posição política ou artigos acadêmicos e etc e tal... ai o trem desandou e deu nesse blog aqui que não tem nada de acadêmico... o engraçado é que só comecei a escrever contos e poesias depois de criar o blog e as artes de uma maneira geral passaram a me interessar mais que a vida acadêmica e ai pronto... caos... acho que não é a toa que minha afinidade seja com o impressionismo e expressionismo, essas pinceladas bem marcadas, um tanto caóticas, mas que no conjunto dá certo, principalmente se ver de longe, e de perto vê-se a riqueza de detalhes, as cores fortes, as pinceladas grotescas e no final um realismo em movimento, um quadro inacabado numa bela moldura... já me conformei, não serei um Van Gogh nem Monet nem Renoir... talvez a falta de perspectiva seja o meu lance sabe, como em Frida Kahlo... desde que não seja algo tosco (detesto essa vanglorização da tosqueira na arte, para mim soa mais como desleixo, preguiça e falta de técnica)... vai que quando eu morrer um quadro meu não venha a ser reconhecido... não é assim que funciona?... aos meus amigos peço que guardem meus rabiscos bem direitinhos... sei de minhas dificuldades em pintar e desenhar, mas como eu não consigo mais viver sem me expressar artisticamente, seja de que forma for, serei sempre persistente... e vou te dizer... há quem goste!! às vezes corre o risco de até eu gostar

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Quase diário fantasiado pelo alterego ou Diálogo tentando conciliar id e superego

É tudo que eu preciso, um papel, uma caneta e um cigarro. Daí me lembro do aeroporto de São Paulo, e toda aquela nostalgia barata de ter viajado. Aquele sol aquecendo o corpo, nada além do corpo, e eu empenhada em fumar um cigarro, um desejo de um abraço e nada a minha frente (ou tanto concreto que chegava ao nada). Talvez um pouco mais pragmática. A objetividade é extremamente necessária aos loucos que se perdem tão fácil na dura realidade. Restaram lembranças, nada além de lembranças e meu corpo, com aquele cigarro barato que além de nostalgia me provocava náusea. De me empenhar a fumar, foi o que restou das lembranças de saber que sou latina. Latida, latente. Agora vou aprender a cantar. Quem canta não pode ser infeliz. Serei uma a(u)(r)tista completa, me aventurei nas artes práticas, escrita, e agora canto. Só na arte do amor é que me fodo. Mas também não dá pra ter tudo na vida, sou uma boa jogadora de buraco, e sabe como dizem: “sorte no jogo, azar no amor”. Lá se vai mais um com o coração partido. Não, espere! Aquele ali é um espelho. Pra cada dedo indicador apontado, outros três apontam pra você mesmo. É mais fácil amar uma ilusão do que a dura realidade. Sou a desengonçada tentando eternamente ajeitar a vida, não por opção, mas por não saber lidar com o cotidiano dos bancos mercenários, do concerto das máquinas, da burocracia de ser empregada, das monografias desafinadas, e por ter perdido metade da minha memória no meio do caminho (desmesmoriada por genética). Não sou lésbica, não sou puta, não sou drogada, mas por me simpatizar com eles e talvez respeitar tudo isso, acabo me tornando um deles. Deslocada do mundo que exige um pragmatismo que não consigo alcançar por ser desengonçada. Voltando ao aeroporto de São Paulo, tudo se resume ali, naquele sol e eu sozinha esperando algo que não sabia bem o que e como viria. Veio. Veio a vida é claro, inevitável. Estava voltando pra casa de um mês de viajem pela américa latina e tudo voltaria a ser como antes. Ter a liberdade tão desejada por todos não é fácil, carregar a cruz dos outros nunca é fácil, extravasar a loucura dos outros nunca é fácil (mas o mundo precisa de Jesus Cristo). Queria ser normal, já se foi, alguma coisa perverteu meu caminho, acho que ainda na barriga de minha mãe. Não quero ser hedonista, quero respeitar meus limites. Mas no aeroporto de São Paulo eu podia sentir que tudo era possível. E sempre restam lembranças. Não sei acabar este texto, porque a vida continua, e por ser demasiado pessoal, eu continuo a vida, meus amores insensatos, minha constante busca por pragmatismo, minha monografia interminada e eu aqui na fila do banco esperando horas pra ser atendida pra poder pagar minhas dividas. Minha senha chegou, levanto atordoada, catando caneta e papel e procurando meus óculos pra saber qual mesa deveria me dirigir. A moça atrás do balcão me sorri simpática e eu descomposta, meu caso não é tão grave assim. Mas eu agoniada: “fecha tudo moça, encerre todas as minhas contas” – ela ri. Eu definitivamente não sei mexer com isso. Por vezes perco minha caneta em meu cabelo e saio a procurar – “onde está a caneta que estava agora pouco aqui meu deus, me ajuda a procurar” – pra meia hora mais tarde encontrá-la prendendo meus cachos que agora não são mais tão cacheados assim. Tudo bem eu assumo minha culpa, mas tenho pavor de quem não assume a própria culpa, nada mais covarde. E agora eu tenho que carregar minha casa em minha bolsa por ter que passar o dia inteiro resolvendo pepino (quem inventou essa gíria?), mas tudo bem, eu sobrevivo à pão na chapa. Só preciso de um papel, uma caneta (e agora um cigarro) pra reinventar meu mundo.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O mundo das crises: uma análise miscelânea Camilana

Recentemente li uma pesquisa no DATA-FOLHA traçando o perfil da juventude hoje. Um artigo em especial, de um psicanalista chamado Contardo Calligaris, me chamou a atenção: A adolescência acabou? Sem nostalgias baratas, conservadoras e burras, não é esta intenção deste texto.
Nasci em 1984, e penso que se eu pudesse traçar uma marco na história do Brasil escolheria este ano. 1984 foi o ano-marco para a redemocratização do país, ano que marca a transição da ditadura para a democracia, ano de luta (?), ano em que ocorreu as Diretas Já, ano do livro de George Orwell (rs), muito atual naquela época e hoje (quem não leu vale a pena, é um clássico).
Ano de luta? Pois bem. Nasci em meio a esse furduncio e todo rearranjo da organização do sistema político, social, econômico, cultural, etc. e tal do país. Uma nostalgia de luta e um sistema voltado para o conhecimento matemático me acompanharam durante toda minha estadia no sistema educacional. De um lado alguns professores de história relembrando as lutas e conquistas dos movimentos que pediam a democratização do país e dizendo que os jovens, no caso nós, éramos o futuro do Brasil (quanta responsabilidade, hein?). E de outro lado, cinco aulas de matemática por semana, além de física e química e apenas três de história e três de geografia que se dividia em geo-física e geo-política. Enfim, de acordo com essa estruturação do sistema educacional, pra mim, me parece claro que a educação básica não estava voltada para o aluno pensar e refletir sobre sua realidade.
Mas essa angústia em meu peito, de uma história de luta e conquistas dos movimentos sociais me fascinavam, talvez por isso tenha escolhido fazer o curso de ciências sociais. Lembro-me bem de um professor de química, que vez o outra encontro nos corredores da UFES, fazer um questionamento em sala de aula sobre porquê o mapa do mundo se posicionava daquela maneira se de acordo com o espaço não há referencial que indique que o norte é para cima e o sul para baixo. Aquilo ficou encafifado na minha cabeça por um bom tempo, tanto que comento aqui.
Mas como em tudo na vida existem porém’s. Tudo bem, ficamos sabendo que Betinho Souza, Henfil, Darcy Ribeiro, Zuzu Angel e os tropicalistas Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, lutaram pelo direito da democracia e o direito de vender seus livros e discos e enterrar seus filhos. Mas a minha mãe e o meu pai não sabem de nada disso, assim como a mãe e pai de muitos amigos, e a minha avó nem sabe o que é ditadura.
Outro porém, acreditava-se que a democracia resolveria os problemas do Brasil, andava-se com um livro de Marx em baixo do braço e se diziam socialistas ou comunistas sem nunca terem lido uma página sequer do O Capital, e os que liam transformavam idéias grande em medíocres por serem pequenos, afinal era bonito ser socialista naquela época.
O mundo se mostrou mais complexo do que o direito de se vender livros e discos, ficou mais complexo entender em que realmente consiste a democracia, a realidade se mostrou mais complexa em relação as desigualdades sociais (afinal é só uma questão social? e o psicológico? e a história? e a política?)
De repente todos exigiam seu lugar ao sol, exigiam seus direitos, negos, brancos, pardos, indígenas, orientais, homossexuais, gays, lésbicas, transexuais, travestis, bi’s, hetros, os evangélicos, da quadrangular, universal, maranata, os candomblés, umbandistas, macumbeiros, cardecistas, católicos, ateus, os emos, punks, sertanejos, rockeiros, as putas e as carolas, os nordestinos, sulistas, e eu. E o direito de ser de direita, porque não? Um aluno me perguntou em sala de aula se uma pessoa não teria direito de ser racista desde que não fizesse mal a ninguém (essa doeu pra responder, afinal o menino tinha uma dose de razão).
Enfim, democracia hoje é um pouco isso, os religiosos se candidatando a cargos políticos em favor da moral e valores cristãos, os neo-nazistas se reunindo e defendendo a supremacia branca, pessoas defendendo a não legalização do aborto enquanto mulheres morrem ou fazem abortos de risco em clinicas fajutas ou com remédios em casa mesmo, ou se possuem dinheiro pagam absurdos. Democracia é um pouco ter direito de colocar silicone, botox, fazer plástica, ser loira ou morena. Mas e o coletivo, onde é que fica mesmo?
Enfim, mas e a juventude? Segundo o artigo de Calligaris, a rebeldia, que por tempos foi associada à juventude, não existe mais (ou talvez nunca tenha existido), o jovem hoje quer saber de trabalho, saúde e família, um emprego em que ele possa ter a próprio casa, sustentar sua família e todo ideal burguês, e um carro com som (aparentemente para poder ficar ouvindo música enquanto o mundo pára por conta do engarrafamento, [nota da autora]). Mas e o coletivo, onde fica mesmo?
Não, não tenho nostalgias, as gerações anteriores também cometeram suas falhas, e as de hoje pensam no próprio umbigo. E eu penso que o maior vitorioso nessa história é o capitalismo. Afinal ser rebelde hoje é andar de all star de 60 reais, camiseta de Che Guevara de 120 reais, óculos estilo Raul Seixas de 400 reais, e um carrinho velho de 16 mil, mas afinal, a liberdade não tem preço, use master card e parcele tudo em cinco vezes.
E eu aqui não posso nem desejar que os Estados Unidos da América se foda porque a gente acaba se ferrando junto. Ainda tenho que engolir que o mundo todo se mobilizando em favor de um país que promove guerras, mata seu próprio presidente e Martin Luter King, subjuga os pais mais fracos economicamente em favor da democracia capitalista para que todos possam ter o direito de comparar all star e comer um hambúrguer do Mac Donald, um merda de país que tem que ser engolido goela abaixo com um presidente terrorista que me provoca náusea.
Mas quer saber, uma parte de mim quer que o mundo entre em colapso mesmo, para que pelo menos possamos repensar toda a estrutura e forma de organização mundial. Vivemos e ainda louvamos instituições falidas como se fossem verdades absolutas ou única forma de conceber e organizar o mundo. Infelizmente a história já mostrou que só nos momentos de crise repensamos e refletimos nossos valores e instituições como família, escola, política. Meu único medo é que os evangélicos dominem o mundo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Sobre a (in)existência da verdade

Le Café Français
(Jean-Pierre Giacardy)

O café nunca foi francês nem brasileiro, o café é das cabras. Acharam, comeram e foram dançar há alguns séculos atrás na frente de um pastor da Etiópia:Revelaram para gente o produto. Os árabes chamaram de Kawa e em Alexandria lá no século X lançaram um tipo de estabelecimento batizado do mesmo nome: café. O produto era bom, além de fazer dançar as cabras, ele fazia pensar os homens e os homens que pensam fazem evolução. O café traz na história dele encontros e palavras; estas palavras que querem mudar o mundo; essas palavras interditadas por aqueles que pensam no lugar dos outros, aqueles que pensam que a gente não pensa.

sábado, 24 de maio de 2008

Dia Nacional do Café

Le Café Français
O café nunca foi francês nem brasileiro, o café é das cabras. Acharam, comeram e foram dançar há alguns séculos atrás na frente de um pastor da Etiópia:Revelaram para gente o produto. Os árabes chamaram de Kawa e em Alexandria lá no século X lançaram um tipo de estabelecimento batizado do mesmo nome: café. O produto era bom, além de fazer dançar as cabras, ele fazia pensar os homens e os homens que pensam fazem evolução. O café traz na história dele encontros e palavras; estas palavras que querem mudar o mundo; essas palavras interditadas por aqueles que pensam no lugar dos outros, aqueles que pensam que a gente não pensa.
(Jean-Pierre Giacardy)
Somente aos apreciadores da cafeinha!!!!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Nós precisamos de um instinto coletivo!

Estou aqui para expressar toda minha indignação com o fato de ficar uma hora no ponto de ônibus com o braço esticado pedindo carona e nenhuma boa alma com carro parar, nem ao menos um para perguntar para onde eu iria.
Puta que pariu! será que esse povo que tem carro não sabe que os ônibus da Grande Vitória estão em greve, e que nesta manhã não rodou sequer um ônibuzinho, nem um lotado. E também não veio nenhuma peruinha clandestina pra me salvar!
Odeio essa cultura capixaba de merda que acha que dar carona é perigoso, mesmo se você estiver num ponto de ônibus, sabendo que o transporte coletivo está em greve e precisando ir trabalhar!!!!
Graças a uma boa alma no ponto que o marido veio buscá-la e por sorte passavam para onde eu me dirigia, consegui uma carona aos trancos e barrancos, num banco molhado porque no dia anterior ele deu uma carona pra vizinha que estava em trabalho de parto e deu a luz lá mesmo!!! Cheio de liquido amniótico! Que maravilha hein?... Mas cavalo dado não se olha os dentes!!!
APELO: VOCÊS QUE POSSUEM CARRO, DEEM CARONA!!! NÓS NÃO VAMOS TE ASSALTAR!!! SÓ QUEREMOS TRABALHAR

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Cabo de Guerra

Dividiu-se o mundo, a vida, o ego, a alma e você em dois opostos. Uns do lado direito, ou leste, ou norte, outros do lado esquerdo ou oeste ou sul. Colocaram-se os sentimentos, as qualidades, os defeitos, o mundo, o espírito, o inexplicável, o amor, o ódio, o belo, o feio, o bom e o ruim diante de uma corda de cabo de guerra. Cada qual escolheu um lado, e no meio, milimetricamente medido por alguém ou alguma coisa, marcaram uma linha que dividia o preto e o branco, o masculino e o feminino, a terra e o ar, o frágil e o bruto, a leveza e o peso, a sanidade e a loucura. Depois de todos estarem cada qual em seu devido lugar, alguém ou a coisa que marcou o meio da corda deu o sinal de que o cabo de guerra postasse a começar. Medindo forças, cada qual começou a puxar para seu lado. E a corda se movia para lá e para cá, para cima e para baixo. Às vezes o leste perdia forças e era carregado pelo oeste, assim vice-versa. E dançavam como uma sinfonia de Beethoven. Ora clamo e sereno como uma valsa, ora frenético e perturbador. Numa briga de galos sem fim, em que nenhum lado perdia.
O homem ou a coisa que marcou a linha no meio da corda havia se esquecido de marcar o lugar em que tal linha deveria se encontrar para que algum dos lados se tornasse vencedor ou perdedor. Esqueceu de marcar onde a linha deveria tanger para o fim dessa disputa que se prolonga por dois mil e quinhentos anos. Ora a esquerda estava mais forte fazendo com que a direita se arrastasse para seu lado, assim vice-versa. E continuavam a disputa, exaustos, fartos de toda aquela briga sem lógica e sem fim. Porém, nenhum lado cedia à vitória ou à derrota.
Ansiavam então para que a corda se rompesse e ao menos houvesse um empate, mas a corda era de aço e não arrebentava. As mãos já cansadas sangravam de agonia, mas não era permitido que nenhuma dicotomia pudesse desistir. Era, e é, inadmissível desistir. E por mais que quisessem não saberiam como, suas mãos se viam grudadas na corda de aço. Não saberiam como tirar as mãos da corda, não saberiam o que fazer de suas vidas a não ser puxar para lá e para cá, para cima e para baixo, condenados eternamente neste cabo de guerra. Não teriam o que fazer, não saberiam o que fazer, a não ser segurar a corda com toda força e puxar.
Rangiam dentes, transpiravam, suavam lágrimas salgadas, mas não largavam a corda. Ambos imaginavam que a que a solução seria a corda arrebentar. Isto os livraria do peso da derrota e da leveza da vitória, os livrariam do peso da vida e da leveza da vida. Salvá-los-iam de suas agonias, medos e exaustão. Mas a corda era de aço e não arrebentaria por mais que puxassem por mais dois mil e quinhentos anos. Somente a coisa ou o homem que marcou o meio da corda poderia decretar o fim do jogo. Porém este adormecia mais do que se punha acordado. E quando acorda se punha a beber vinho e se entregar a orgias. Às vezes olhava o cabo de guerra com a boca farta de pão, mas não pensava sobre a solução de tal desastre. Não sabia que cabos de aço não arrebentavam em jogos de cabos de guerra. E não sabia que deveria marcar o fim em que o meio da corda deveria chegar. Então, voltava a dormir e esperar pelo grande dia em que anunciaria a vitória de algum lado sem se preocupar se o norte e o sul se deglutiam em algum lugar do espaço ou dentro de mim.

domingo, 2 de setembro de 2007

O preço do progresso.

Via aquele parafuso gigante penetrar a terra, corrompendo seu cerne, como se perfurasse meus próprios pés. Dilacera a terra e a minha vivacidade num barulho agonizante e incessante. Tão agudo aos meus ouvidos que por mais distante que se encontre é como se estivesse ao meu lado, perfurando meus ouvidos. Faço parte de um fragmento da vida em que tudo muda numa freqüência tão aterrorizadora. Vejo as mudanças tão latentes em meu cotidiano que não há férias que me faça deglutir todo esse imprensamento de meu estomago, de meus olhos, de minhas mãos. Mesmo que feche todas as janelas e portas de minha casa ainda assim ouço aquele martelo e todo aquele barulho de metal se rebatendo em favor do progresso. Cada martelada é um buraco que se abre nas entranhas do solo, cada buraco é mais uma viga que se edifica para que possamos nos espremer no menor espaço possível. Parece-me que está é a idéia: quanto mais gente conseguir habitar o menos espaço possível, melhor! Todo esse metal que trás consigo esse progresso maldito me enche de uma dor vazia como se esse parafuso gigante perfurasse meu crânio e em qualquer instante pudesse sair pelos meus pés. Mas ele nunca termina este trabalho, encontra-se estagnado dentro de mim e não consigo tirá-lo de meu corpo. E a cada martelada que se destina ao solo, me perfuram mais, numa martelada sem fim e sem fundo. Não há lugar por onde eu ande que me sinto tranqüila com meus pensamentos. Há sempre um barulho a romper a calma que as nuvens produzem. Há sempre algo à se olhar, um ruído à ser ouvido, um sol de rachar a pele e um odor de esgoto que chega ao nariz com tanta veemência que posso jurar que sinto o gosto desta cidade em minha boca. Um gosto de metal e clorofórmio fecal. E aquele parafuso gigante guiado por mãos tão pequenas me penetra insistentemente como uma graxa que não sai de nossas mãos. O céu que antes era azul me parece cinza, mas de um cinza sem cor, afogado no concreto e no fedor. É como se esse parafuso gigante arrancasse minhas víceras, mas nunca completasse seu trabalho. Há alguns anos pensei que essa agonia em algum momento pudesse ter fim, pensei que em algum lugar no tempo não fosse existir mais casas que pudessem ser derrubadas para dar lugar a uma serpente sem corpo e sem mola, mas sempre há algo a ser destruído para que alguma coisa com mais concreto, mais gente e mais barulho possa existir. Vamos espremendo-nos até que não sobre mais espaço para dar um peido, que agora fede mais por causa dos enlatados.


(Guernica - Pablo Picasso)

Paciência - Lenine

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não pára
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mias veloz
A gente espera do mundo e mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência
Será que é tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber, a vida é tão rara... tão rara
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não

domingo, 19 de agosto de 2007

A abelha, a formiga e a camila

Salvador Dali


Hoje olhei para minhas pernas e elas estavam cabeludas. Senti-me bem por ter as pernas cabeludas. Senti-me bem por não ter quem me diga que elas assim o estão. Algumas pessoas sentem a necessidade de dizer coisas que na verdade não precisam ser ditas pois são tão obvias que não precisam ser verbalizadas. Sei que minhas pernas estão cabeludas e não preciso que me digam o óbvio. Estou feliz com elas porque são minhas e faço delas o que bem entendo. Elas me permitem andar e isso basta.
Às vezes me dizem: “essa é a Camila que conheço”. Bem, eu vos digo, e como poderia não ser. Todas as camilas que vocês encontraram em todos os dias em que esbarraram comigo, como poderia não ser eu, a mesma camila. Um pouco diferente talvez se pensarmos como alguns filósofos que nos dizem que não só não podemos entrar no mesmo rio duas vezes, como não se pode entrá-lo sequer uma vez, já que, nem o rio nem nós mesmos seríamos a mesma matéria de alguns segundo atrás. Como diria Raul, uma metamorfose ambulante. Mas essa metamorfose que a cada segundo me torna uma nova pessoa, todas elas, sou eu. Esta que vês desnudam em sua frente. Pois não poderia ser outra coisa senão eu mesma. A de pernas cabeludas ou raspadas. A que às vezes está triste e a que fala putaria sem medir palavras e sem medo de ser julgada, pois ninguém que habite este planeta poderá me julgar pelo que sou ou pelo que deixo de ser.
Sinto-me bem aqui sentada em meio a tantas formigas que às vezes me atacam e provocam coceiras. Agora a pouco vi um duelo entre uma formiga e uma abelha. Formidável! Estava aqui sentada com meu livro quando ouvi um zunido que me chamou a atenção. Olhei para trás e procurei de onde vinha o barulho. Vi aqueles dois seres se atracando em meio à grama. Primeiro pensei que a abelha atacava a formiga, imaginei que ela fosse mais forte pois tinha asas. Mas abelhas não atacam formigas. Elas procuram flores, procuram mel. Não se preocupam com a mediocridade da formiga que se arrastam no chão e não tem asas. Pensei que a abelha venceria.
Não detive minha atenção por muito tempo com essas meticulosidades da vida e voltei-me para o livro que lia. Mais tarde vi aquela formiga carregando aquela abelha gigante que parecia ser mais forte. Que fantástico, a formiga havia vencido a batalha e carregava seu troféu como se estivesse embriagada, não conseguia carregar seu premio pois esta era muito pesada, mas não desistia.
Vinham em minha direção e resolvi interferir no processo. Não sei bem o porquê tomei tal atitude, simplesmente o fiz sem pensar, e empurrei a formiga e sua abelha que voaram longe, uma para cada lado, assim sem piedade. Não me retorci de remorso por ter separada a formiga de seu troféu que tão deveramente conquistara. Pensei apenas que a vida é assim. Uma cadeia alimentar sem propósito, e que por alguns instantes estou no alto dessa cadeia e me aproveito de tal situação.
Não me vejam uma pessoa má por isso caro leitor. Tenho certeza que em algum momento de suas vidas também tomaram atitudes drásticas e sem propósito de valores não muito nobre. Seria o mesmo que condenar uma formiga por ter matado uma abelha, e para que uma formiga atacaria uma abelha? seria inveja de suas asas. As formigas simplesmente comem vermes e atacam abelhas porque é de sua natureza, e não as julgo por isso. Também sou um animal, e muitas vezes não penso sobre minhas atitudes. Não me recordo bem agora, acho que foi Saramago quem disse que se fossemos pensar minuciosamente o que faríamos em cada situação de nossas vidas o momento teria passado e então não teríamos vivido e aproveitado a beleza de viver.
Confesso que sou puro instinto e sentimento, e poucas vezes sou racional. Eu sinto e acredito em meus sentimentos, não penso sobre eles, simplesmente reajo. Viver já é interferir no processo da vida, não há outra escolha. As formigas me incomodam e por isso de vez em quando as mato sem remorso. Às vezes as formigas me picam e deixam marcas, não as culpo por isso. A vida passa e preciso vivê-la. Seria o mesmo que exigir de um artista que ele saiba porque ele pinta, ele simplesmente o faz e isso basta, sentir uma obra de arte, é a isso que um artista se propõe e não podemos cobrar mais do que sua condição possa oferecer, basta apreciar. Agora me calo, pois como já disse, existem coisas que não precisam ser ditas, são óbvias demais para serem repedidas tantas vezes.

A Alma e o Baú

Tu que tão sentida e repetida e voluptuosamente te entristeces e adoeces de ti,
É preciso rasgar essas vestes de dó,
As penas é preciso raspar com um casco, uma
Por uma: são
Crostas...
E sobre a carne viva
Nenhuma ternura sopre.
Que ninguém acorra.
Ninguém, biblicamente, com seus bálsamos e olores
Ah, tu com tuas cousas e lousas, teus badulaques, teus ais ornamentais, tuas rimas,
Esse guizos de louco...
A tua alma (tua?) olha-te simplismente.
Alheia e fiel como um espelho.
Por supremo pudor, despe-te, despe-te, quanto mais nu, mais tu,
Despoja-se mais e mais.
Até a invisibilidade.
Até que fiquem só espelho contra espelho
num puro amor isento de qualquer imagem.
- Mestre, dize-me... E isso tudo valerá acaso a perda do meu baú?
(Mário Quintana)


(Salvador Dali: "The antropomorphic cabinet")


Tem razão minha amiga Natali. Nada valerá a perda de meu baú. Mas é preciso raspar com um casco as penas, para enfrentar esse mundo sem ternura. Obrigada por sua carta, obrigada mais ainda por sua presença que me permite ser sincera sempre, que aceita meus defeitos como uma virtude, e que me faz companhia nas noites de vinho. Mas não é qualquer companhia, é a tua. Não é o vinho que me faz rir, mas suas risadas. Sua sinceridade para com você mesma é que me permite ser sincera comigo sem culpa. Despida e sem pudor. Não podemos nos corromper, porque somos o que somos, e é isso que nos faz feliz. Somos imperfeição e aceitamos nossa condição como qualidades. Compartilhar com você esses dias é essencial, pois, me sinto completa e livre, e não é necessário mudar, vestir máscaras.



sábado, 11 de agosto de 2007

Olhando de cima aqui me vejo!


O que é essa luz na frente de sua cama, que a consome. Consome-a, e se deixa consumir para passar esse maldito tempo que a devora viva. É devorada pelos seus próprios erros. E o que deveria ser uma virtude escapa-se como um pecado. Será este seu maldito destino. A loucura que tudo vê mas se cala para não ser levada ao manicômio. É lágrima que corre solitária como a ti. Desta vez nem o tempo foi seu cúmplice. O fim é a única verdade, tudo acaba. E todo fim é corrompedor (corrompe dor, cor rompedor). Corrompe mais um ciclo que se vai pelo ralo. Sua única companhia é a luz em frente a sua cama. Está cansada, mas teme fechar os olhos para não ver a verdade a que próprio procura. Agora a incerteza é seu guia. E fechar os olhos é lembrar um passado que não foi belo. Chora porque as lágrimas são sua única certeza. A certeza de que está viva e é humana. Seguir adiante nunca foi tão difícil como agora. Ter que sorrir para esconder a verdade é sua maior dor. Não dorme porque sua mente é assassina. Que mata sua alma aos pouco. O tempo passou e lhe restou uma rosa seca, sem cheiro e sem cor. Escarra na carne que beija para negar um futuro certo. E não erra seus sórdidos desejos, a certeza do fim sem a possibilidade de um novo começo. Agora tem que dar passos para trás e voltar a ser como era, normal, pois não será aceita com tantas mudanças, e não quer mudar porque dói. E a maldita luz na frente de sua cama a consome para que não se consuma e definhe em sua própria dor.
(Quadro - Edgar Degas)

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Admirável Mundo Novo

Onde tudo é permitido. Menos a dor. Ocupamos-nos e nos relacionamos com o outro a todo o momento. Ou não. E renegamos o sentimento. Achamos-nos intocáveis. Inabaláveis. Deixar de lado todas nossas preocupações e mágoas para entregarmos-nos somente ao prazer. Só isto é válido. Fingir que está tudo bem. Estamos bem e nada nos atinge. Tentar esquecer o mais profundo de nossos pensamentos. A sensibilidade humana renegada em favor da razão. E neste processo tornamos-nos cada dia “menos humanos”. Ou humanos piores. Percebemos o universo como se tudo fosse possível. Que estamos sempre certo. O errado não existe. Tudo pelo prazer. A dor não é permitida. É só tomar a pílula mágica. Para dormir. Para comer. Para esquecer. Para lembrar. Esquecemos que a dor é tão fundamental quanto qualquer outro sentido. Faz parte do processo de humanização do ser. Não me sinto capaz de esquecer, fingir que não existiu, que não aconteceu. Os pensamentos ainda se remoem em minha mente. E negar isto é negar meu ser. Onde tudo no dia a dia passa tão rápido. Nossos sentidos se ocupam de tanta coisa que não podemos perceber. Outdoor. Carros. Panfletos. Cartazes. Buzinas. Propagandas. Televisão. Computador. E a cada ação inanimada do mundo o nosso corpo reage. E sem nos darmos conta dos excessos. Tornamos-nos frígidos. Os sentidos pelo qual nos relacionamos com outro ser humano, qual é o seu? As relações se tornam tão voláteis. Tudo é tão superficial e passageiro. E o sentimento? Algo que tanto prezo. Renegamos de nossas mentes. Como se não existisse. Não quero pensar nisto. Não quero sentir. Não quero dor. Não quero sofrer. Não quero morrer. Quero esquecer. Quero esquecer. Sou inatingível. Eu! Tudo é tão insólido. Insatisfeito. Breve. Esconder no fundo do baú nossos medos é fingir que somos super-heróis. Não a dor. Não ao medo. Não ao erro. Estamos sempre certo. E nessa certeza tudo se torna tão frágil quando descobrimos que outro jeito é possível. E o que era tão sólido se desmancha no ar com tanta facilidade. Vamos continuar em nosso pedestal. Porque temos medo de cair. E sou incapaz de reconhecer a nobreza de se levantar. Ficamos tão abitolados em nossa prepotência. Somos auto-suficientes. E nos enterramos em nosso próprio orgulho. Escondemos-nos em nossos casulos. Sem saber a beleza de voar. Sem perceber vamos atrofiando como ser humano. Medíocres, pequenos. Eu. Negando a própria fragilidade humana. Da carne. Do sangue. E isso é ser humano? Humano pós-moderno.