Mostrando postagens com marcador crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônicas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O mundo das crises: uma análise miscelânea Camilana

Recentemente li uma pesquisa no DATA-FOLHA traçando o perfil da juventude hoje. Um artigo em especial, de um psicanalista chamado Contardo Calligaris, me chamou a atenção: A adolescência acabou? Sem nostalgias baratas, conservadoras e burras, não é esta intenção deste texto.
Nasci em 1984, e penso que se eu pudesse traçar uma marco na história do Brasil escolheria este ano. 1984 foi o ano-marco para a redemocratização do país, ano que marca a transição da ditadura para a democracia, ano de luta (?), ano em que ocorreu as Diretas Já, ano do livro de George Orwell (rs), muito atual naquela época e hoje (quem não leu vale a pena, é um clássico).
Ano de luta? Pois bem. Nasci em meio a esse furduncio e todo rearranjo da organização do sistema político, social, econômico, cultural, etc. e tal do país. Uma nostalgia de luta e um sistema voltado para o conhecimento matemático me acompanharam durante toda minha estadia no sistema educacional. De um lado alguns professores de história relembrando as lutas e conquistas dos movimentos que pediam a democratização do país e dizendo que os jovens, no caso nós, éramos o futuro do Brasil (quanta responsabilidade, hein?). E de outro lado, cinco aulas de matemática por semana, além de física e química e apenas três de história e três de geografia que se dividia em geo-física e geo-política. Enfim, de acordo com essa estruturação do sistema educacional, pra mim, me parece claro que a educação básica não estava voltada para o aluno pensar e refletir sobre sua realidade.
Mas essa angústia em meu peito, de uma história de luta e conquistas dos movimentos sociais me fascinavam, talvez por isso tenha escolhido fazer o curso de ciências sociais. Lembro-me bem de um professor de química, que vez o outra encontro nos corredores da UFES, fazer um questionamento em sala de aula sobre porquê o mapa do mundo se posicionava daquela maneira se de acordo com o espaço não há referencial que indique que o norte é para cima e o sul para baixo. Aquilo ficou encafifado na minha cabeça por um bom tempo, tanto que comento aqui.
Mas como em tudo na vida existem porém’s. Tudo bem, ficamos sabendo que Betinho Souza, Henfil, Darcy Ribeiro, Zuzu Angel e os tropicalistas Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, lutaram pelo direito da democracia e o direito de vender seus livros e discos e enterrar seus filhos. Mas a minha mãe e o meu pai não sabem de nada disso, assim como a mãe e pai de muitos amigos, e a minha avó nem sabe o que é ditadura.
Outro porém, acreditava-se que a democracia resolveria os problemas do Brasil, andava-se com um livro de Marx em baixo do braço e se diziam socialistas ou comunistas sem nunca terem lido uma página sequer do O Capital, e os que liam transformavam idéias grande em medíocres por serem pequenos, afinal era bonito ser socialista naquela época.
O mundo se mostrou mais complexo do que o direito de se vender livros e discos, ficou mais complexo entender em que realmente consiste a democracia, a realidade se mostrou mais complexa em relação as desigualdades sociais (afinal é só uma questão social? e o psicológico? e a história? e a política?)
De repente todos exigiam seu lugar ao sol, exigiam seus direitos, negos, brancos, pardos, indígenas, orientais, homossexuais, gays, lésbicas, transexuais, travestis, bi’s, hetros, os evangélicos, da quadrangular, universal, maranata, os candomblés, umbandistas, macumbeiros, cardecistas, católicos, ateus, os emos, punks, sertanejos, rockeiros, as putas e as carolas, os nordestinos, sulistas, e eu. E o direito de ser de direita, porque não? Um aluno me perguntou em sala de aula se uma pessoa não teria direito de ser racista desde que não fizesse mal a ninguém (essa doeu pra responder, afinal o menino tinha uma dose de razão).
Enfim, democracia hoje é um pouco isso, os religiosos se candidatando a cargos políticos em favor da moral e valores cristãos, os neo-nazistas se reunindo e defendendo a supremacia branca, pessoas defendendo a não legalização do aborto enquanto mulheres morrem ou fazem abortos de risco em clinicas fajutas ou com remédios em casa mesmo, ou se possuem dinheiro pagam absurdos. Democracia é um pouco ter direito de colocar silicone, botox, fazer plástica, ser loira ou morena. Mas e o coletivo, onde é que fica mesmo?
Enfim, mas e a juventude? Segundo o artigo de Calligaris, a rebeldia, que por tempos foi associada à juventude, não existe mais (ou talvez nunca tenha existido), o jovem hoje quer saber de trabalho, saúde e família, um emprego em que ele possa ter a próprio casa, sustentar sua família e todo ideal burguês, e um carro com som (aparentemente para poder ficar ouvindo música enquanto o mundo pára por conta do engarrafamento, [nota da autora]). Mas e o coletivo, onde fica mesmo?
Não, não tenho nostalgias, as gerações anteriores também cometeram suas falhas, e as de hoje pensam no próprio umbigo. E eu penso que o maior vitorioso nessa história é o capitalismo. Afinal ser rebelde hoje é andar de all star de 60 reais, camiseta de Che Guevara de 120 reais, óculos estilo Raul Seixas de 400 reais, e um carrinho velho de 16 mil, mas afinal, a liberdade não tem preço, use master card e parcele tudo em cinco vezes.
E eu aqui não posso nem desejar que os Estados Unidos da América se foda porque a gente acaba se ferrando junto. Ainda tenho que engolir que o mundo todo se mobilizando em favor de um país que promove guerras, mata seu próprio presidente e Martin Luter King, subjuga os pais mais fracos economicamente em favor da democracia capitalista para que todos possam ter o direito de comparar all star e comer um hambúrguer do Mac Donald, um merda de país que tem que ser engolido goela abaixo com um presidente terrorista que me provoca náusea.
Mas quer saber, uma parte de mim quer que o mundo entre em colapso mesmo, para que pelo menos possamos repensar toda a estrutura e forma de organização mundial. Vivemos e ainda louvamos instituições falidas como se fossem verdades absolutas ou única forma de conceber e organizar o mundo. Infelizmente a história já mostrou que só nos momentos de crise repensamos e refletimos nossos valores e instituições como família, escola, política. Meu único medo é que os evangélicos dominem o mundo.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Manicômio

(Ao menino dos olhos claros,
somos loucos para não pirar.)


- E ai como vai a vida?
- Um caos
- É isso mesmo, não pode deixar a peteca cair. Se a vida quiser estabilizar você arruma um problema, um questionamento filosófico, brigue com sua família, seus amigos, qualquer coisa para não voltar a estabilidade e monotonia. Afinal uma vida muito certinha não combina com você.
Um trago na cachaça
Dois tragos no cigarro
- Acho que sofro de transtorno bipolar!
- Não é que você sofra de transtorno bipolar, é que você gosta de emoções intensas e extremas. Quando você está muito feliz você aproveita bastante, curti todas, mas quando está triste você gosta de curtir a melancolia para se recolher e pensar sobre a vida. Isso é bom.
- Por isso que eu gosto de ter amigos inteligentes com vocações psicanalíticas, me entendem melhor do que eu.
Dois tragos na cachaça.
Três tragos no cigarro.
- Nossa olha quanta estrela cadente!!!
- Tá doido? Isso é chuva. Você tem que parar de usar essas drogas que as enfermeiras te fazem engolir. E também acho que você não deve mais freqüentar as seções de eletrochoque.
- Porra de maldito mundo!!!
Três tragos na cachaça.
Quatro tragos no cigarro.
- Nossa hoje eu vi um quadro de Salvador Dali maravilhoso, me apaixonei. Parece com umas alucinações que tenho ultimamente.
- Você e essa maldita mania de inventar paixões! Paixão por música, paixão por literatura, paixão por mosaico, paixão por desenho, paixão por pintura, paixão por política. Nada que dá dinheiro.
- “Porra pai, onde o senhor estava na minha primeira infância que não me ensinou o valor do suor do trabalho, o valor de sacrificar a juventude, a vida adulta e uma parte da velhice para que ‘eles’ pudessem lucrar em cima de todo meu esforço e labor, o valor de me trancafiar em um escritório no mínimo oito horas por dia, ouvir desaforo do chefe, ganhar um salário de merda que não paga nem o plano de saúde e a cerveja. Agora veja no que me tornei, um louco fora do mundo!”
Quatro tragos na cachaça.
Cinco tragos no cigarro.
- Louco? Você? Imagina!Louco é esse maldito mundo de poses e farsas, de valorização excessiva ao corpo em que o tamanho do bispes e da bunda valem mais do que o tamanho do cérebro. Loucura é a anorexia, a bulimia. Loucura é tomar remédio pra dormir, pra acordar, pra ficar feliz, pra esquecer, para não sentir fome. Loucura é viver de fachada, é arranjar explicação racional pro sentimento, é mentir para si e achar que é verdade. Louco é esse mundo de violência exacerbada, é matar uma prostituta a paulada, é bater com uma barra de ferro no cara que bateu no seu carro, é torturar um ser humano e achar que está educando, é se suicidar com uma faca de plástico num presídio. Loucura é enfrentar duas horas de engarrafamento e não querer abrir mão do seu carro em favor do transporte coletivo. Loucura é pobre ser de direita. Loucura é proibir o aborto, o uso da camizinha, que livre arbítrio de cú é rola. Loucura é essa insônia coletiva, essa angústia infinita.
- Pois é, louco é aquele que chama Van Gogh de louco. Só porque o cara cortou a orelha. A verdade é que neste ato, ele queria transmitir toda essa apoteose pós-moderna de resignifacação da vaca passando pela transvaloração do ser em si mesmo com o uso de imagens friamente calculadas instrumentalizando todo um acaso expandindo o senso de mudança conceituando a instabilidade e burlando a realidade dissolvendo o concreto em água. O cara era um gênio! Se pelo menos eu tivesse nascido gênio poderia ficar satisfeita, mas não, me fizeram medíocre. Estou fadado a morrer sendo um rosto desconhecido na multidão.
Cinco tragos na cachaça.
Seis tragos no cigarro.
- Vixe! A chuva está aumentando... está alagando tudo! É o apocalipse!
- Que nada, é só mais um governo que não se preocupa com a infra-estrutura das grandes cidades. O mundo vai acabar mesmo é em fogo!


Goya - Saturno, 1820-1823 (óleo sobre tela, Madrid, Museo del Prado)

sexta-feira, 20 de julho de 2007

A Arte – Reflexões do Dia com Nilson Camizão

(la Grènouillère - Claude Monet )


Já me desculpo com os entendedores de arte se o que vos digo não passa de um monte de abobrinha, mas como humana tenho direito ao erro e numa democracia tenho direito de expressar minha opinião, que para mim parece bastante plausível .
Para que serve a arte? vos pergunto. E acredito que essa pergunta é feita por diversos filósofos, artistas, cientistas, e por nós meros mortais, que de uma maneira ou de outra experimentamos a arte, seja ao observar uma obra, ao ler um bom livro, ao escrever um poema, ou ao nos aventurar num desenho, numa pintura. Sinto-me no direito de dizer que a arte não pode ser explicada por um cientista, e que talvez um filósofo possa compreender seu sentido e seu significado para a vida humana. Para nós meros mortais, basta sentir, e acredito que nesse aspecto nos aproximamos dos artistas, pois tais, também sentem, porém vão além do que podemos imaginar, eles estudam técnicas, se aperfeiçoam, discutem arte, criam e recriam num processo que pode levar uma vida inteira até atingir a maturidade artística.
Para mim em particular, e para muitos que conheço, o processo que leva um grande artista a ser artista não está ligada somente a sua criatividade e sensibilidade, mas também, e principalmente, à sua capacidade de utilizar as técnicas e aprendizagem artística para recriar um novo contexto de se fazer arte com sua própria inspiração e muita, muita transpiração. É isso que aprendemos com a história dos grandes artistas. A arte tem um contexto, e os artistas participam desse contexto, discutem entre si, aprendem entre si. E para alcançar isso não basta estudar a história da arte, é preciso técnica e prática.
Infelizmente os artistas e a arte pós-moderna pensam diferente de mim, mostrando a arte apenas como um ímpeto criativo que não deve se amarrar a formas e técnicas, utilizando-se somente de sua criatividade e sensibilidade. Mas acreditem ou não a arte é ESTÉTICA, gostem ou não.
A arte não é só emoção e sentimento, também requer estudos, e não apenas um ímpeto rebelde de criar. Uma criação artística não leva um dia, um mês, ou um ano, leva-se uma vida, muitos anos de conhecimento, estudo e aplicação da arte, e isso que é apreendido em sua vida faz parte do processo criativo.
Numa reflexão com Camizão, um grande artista que tive o prazer de conhecer a alguns anos, revelou-se uma realidade que ainda não havia percebido.
- Nada mais contemporâneo do que esse lixo artístico com que nos deparamos nas galerias. Eles refletem justamente a crise desse mundo pós-moderno. De desarmonia com o mundo, com o corpo e com a mente, nesse emaranhado em que nos encontramos que não tem propósito. A Terra possui uma pulsação que vibra na mesma sintonia que nosso coração, é como se fossemos tudo a mesma coisa, a Terra é uma extensão de nossos corpos, e tudo que fazemos para agredi-la volta-se contra nós, não só na água poluída, mas numa sensibilidade intrínseca que possuímos de sentir o mundo na mesma sintonia do pulsar do coração, ainda não sabemos o que esse sentimento de caos que absorvemos significa, mas toda essa agressão que criamos é repassado e transmitido através da arte.
Eu rio.
- Mas é verdade!
- Rio pela ironia deste mundo. Quer dizer: nada mais contemporâneo do que esse lixo artístico! É desse mundo que eu faço parte, é desse processo de destruição que faço parte. Dessa loucura sufocante e agonizante que não tem sentido. Nesse mundo niilista, que é refletida nessa arte niilista. E a arte é um refugio e uma denuncia anônima, que não tem sentido para quem produz ou reproduz isso. A arte se torna uma válvula de escape em que expressamos essa agonia. Essa arte-lixo é uma denuncia de que o mundo está em crise, de que viver não tem sentido, que estamos destruindo a Terra assim como a nós mesmos.
E em minha agonia me pergunto, para que o mundo produz tanta arte? A arte é um refúgio da alma, não de uma alma divina, mas no sentido filosófico do que dá animo ao ser. Bem, poderia ser a religião, uma paixão, assim como pode ser a arte. Mas o prazer de viver da arte é somente para os que beiram a loucura, pois nada mais abstrato do que ela, você não sabe o porquê, mas ela te alimenta, te satisfaz e te completa. Não é como o amor, pois não te limita e não é como uma religião, pois não te dá uma resposta pronta. A arte é somente para os que beiram a loucura!